A agenda ESG no setor automotivo costuma ser traduzida em metas ambiciosas: eletrificação, redução de emissões, eficiência energética e expansão de materiais recicláveis. São vetores essenciais, mas existe outro pilar frequentemente ignorado nos debates sobre sustentabilidade que não só dialoga com esses outros pontos, mas também molda de forma direta o impacto ambiental e o próprio desempenho econômico da indústria de veículos: a durabilidade das peças.
Pensar em durabilidade, afinal de contas, é repensar o ciclo de vida dos componentes, desde sua concepção até seu descarte. Cada peça que permanece em operação por mais tempo reduz a necessidade de reposição, diminui a pressão sobre a cadeia produtiva e evita emissões associadas à fabricação, ao transporte e ao descarte prematuro. Em outras palavras: durabilidade é ESG em sua forma mais objetiva e mensurável. No entanto, no debate público e corporativo, esse princípio permanece como um eixo subestimado.
A hora é propícia para mudarmos essa leitura, sobretudo quando se observa um momento em que o setor automotivo é pressionado a rever, justamente, a amplitude de seus impactos ambientais. Nesse sentido, pensar em longevidade passa a ser tão importante quanto, por exemplo, discutirmos a eletrificação de frotas.
E essa discussão ganha ainda mais peso quando se observa o perfil da frota brasileira: segundo dados do Sindipeças, a média de idade dos veículos que circulam hoje no país aumentou de 8 anos e 10 meses para 11 anos e 2 meses entre 2015 e 2024 – com quase 25% da frota circulante superando a média de 16 anos.
Isso significa sistemas mais vulneráveis, maior desgaste acumulado e uma demanda crescente por reposição. Nesse contexto, a durabilidade não é apenas desejável, é necessária para manter a frota operante e reduzir o impacto ambiental de sucatas e trocas prematuras. Essa equação ambiental se soma a uma dimensão econômica central para consumidores, frotistas e oficinas. Quanto maior a durabilidade, menores os custos de manutenção, menor a ociosidade de frota e maior a eficiência do transporte.
Mas a durabilidade não se conquista sem processos estratégicos: ela é resultado de engenharia, testes rigorosos e controle de qualidade. Em mercados mais maduros, tendências como testes de resistência acelerada, análise estrutural por IA, simulação de ambientes extremos e monitoramento de falhas em campo já fazem parte do planejamento das principais fornecedoras.
No Brasil, empresas e indústrias que investem nesse tipo de abordagem inovadora estabelecem uma vantagem competitiva clara: criam produtos que resistem mais, constroem marcas reconhecidas e garantem confiabilidade ao consumidor final e ao mecânico, figura central na decisão de compra de peças.
Esse movimento contribui para um ciclo virtuoso: peças melhores prolongam a vida dos veículos, reduzem o descarte, diminuem a pegada de carbono associada à produção e tornam o setor mais eficiente. No médio prazo, fortalecem toda a cadeia automotiva, especialmente o aftermarket, que tem crescido de forma consistente e precisa lidar com uma frota cada vez mais antiga.
Nesse sentido, a discussão sobre mobilidade sustentável não pode se limitar ao que há de mais visível na pauta ESG. Eletrificação e “componentes verdes” são essenciais e um norte para o futuro, mas não substituem a necessidade de produzir peças que resistam ao tempo e ao uso. Ao defender a durabilidade como eixo estratégico da agenda ESG, abre-se espaço para uma visão mais ampla de sustentabilidade: uma que considera o ciclo completo de vida dos veículos, a realidade atual da frota brasileira, o impacto econômico sobre consumidores e a responsabilidade da indústria.
Com tudo isso, para a cadeia automotiva nacional, este é o momento de reposicionar a durabilidade não como um atributo técnico secundário, mas como um valor central. Essa mudança de perspectiva não apenas fortalece a competitividade das empresas, como também redefine o papel do aftermarket na construção de uma mobilidade mais eficiente e, sem dúvidas, mais sustentável.