Automotivo  30/03/2026 | Por: Redação

Engenharia

Brasil pode enfrentar escassez de engenheiros nos próximos anos

Queda no interesse por cursos técnicos acende sinal de risco para a indústria e para a capacidade de inovação do país, segundo especialista.


O Brasil pode enfrentar, em um futuro próximo, um apagão de mão de obra em engenharia, justamente em um momento em que a demanda por profissionais técnicos cresce globalmente. O alerta foi feito por Anderson Correia, Diretor-presidente do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas – e Professor Titular do ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica, durante o 1º Fórum Estratégico AEA, idealizado e promovido pela AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva.

Com foco no tema “Formação de mão de obra para novas tecnologias”, discutiu um dos principais desafios da engenharia no país: a queda consistente no interesse dos brasileiros por cursos na área.

“Estamos diante de um movimento preocupante. As engenharias perdem espaço enquanto outras áreas crescem. Isso compromete diretamente a capacidade do país de desenvolver tecnologia e sustentar sua base industrial”, afirmou o professor.

Dados apresentados no fórum mostram que entre 2018 e 2023 houve uma queda de 27% no número de formandos de engenharia no Brasil, o equivalente ao desaparecimento de quase 1 em cada 3 novos profissionais.

Outro dado alarmante mostra que entre 2015 e 2024 houve queda de mais de 10% na oferta de bolsas de estudo em mestrado, doutorado e pós-doc da CAPES, fundação vinculada ao Ministério da Educação do Brasil que fomenta a pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), em Engenharias. A título de comparação, no mesmo período houve aumento de quase 50% na oferta de bolsas para a área de Ciências Sociais e de 15% para a área de Saúde.

Esse movimento ocorre na contramão das transformações tecnológicas em curso, impulsionadas por áreas como inteligência artificial, transição energética, biotecnologia e mobilidade.

Apesar de o Brasil contar com uma base relevante de ciência, tecnologia e inovação — com destaque para São Paulo, que concentra cerca de 25% do PIB nacional —, isso não tem sido suficiente para reverter a queda no interesse pelas engenharias nem para formar profissionais na escala necessária.

“A redução na formação de engenheiros deixou de ser um sinal de alerta e passou a representar um risco concreto para a capacidade do Brasil de inovar e sustentar sua base industrial. Se não houver ação coordenada, vamos enfrentar um déficit de profissionais justamente quando o mundo acelera a demanda por tecnologia”, afirma Marcus Vinicius Aguiar, presidente da AEA.

Entre os caminhos discutidos estão o fortalecimento da formação em STEM – Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática –, o incentivo à base matemática desde os níveis iniciais de ensino, a ampliação da colaboração entre indústria, academia e governo e o foco em áreas estratégicas como energia, terras raras, biotecnologia e inteligência artificial.

Diante desse cenário, a AEA criou o Fórum Estratégico de Engenharia cujo objetivo é o de mobilizar o setor para fortalecer a localização de centros de pesquisa e de desenvolvimento no Brasil e, por consequência, valorizar a engenharia automotiva nacional e o adensamento da produção de autoveículos, sistemas, peças e componentes.

“Queremos que o Fórum sirva como uma plataforma permanente de discussão e construção de propostas para o setor, com o objetivo de aproximar indústria, academia e governo em torno de temas estruturais”, afirma Everton Lopes, vice-presidente da AEA e responsável pelo Fórum Estratégico de Engenharia.

Ao longo de 2026, o Fórum deve transformar esse diagnóstico em propostas concretas, em um momento em que a formação de engenheiros deixa de ser uma questão educacional e passa a ser um tema estratégico para a competitividade do país.