Economia  30/03/2026 | Por: Redação

Maquinatual

Setor de máquinas e equipamentos inicia 2026 com intensa desaceleração

Contração de 18,8% na receita direcionada ao mercado doméstico indica que o investimento produtivo do país entrou em forte fase de contração


Os dados de fevereiro de 2026 reforçam que a aquisição de máquinas e equipamentos está desacelerando e que o país está atravessando uma inflexão mais clara do ciclo de investimentos. A queda interanual de 14,2% no consumo aparente — para cerca de R$ 29 bilhões —, e neste cenário a contração de 18,8% na receita direcionada ao mercado doméstico, no mesmo comparativo, indicam que o investimento produtivo do país entrou em uma fase de contração mais evidente do que se supunha no final de 2025. 

Mais do que o número em si, o que chama atenção é a abrangência da retração: houve queda simultânea nas compras de bens nacionais e importados. Isso sugere que não se trata de substituição de oferta, mas de compressão efetiva da demanda por investimento produtivo. 

Contração do investimento: de ajuste cíclico à deterioração das decisões empresariais 

O recuo de 17,9% no consumo aparente no primeiro bimestre evidencia que o investimento produtivo perdeu tração de forma relevante. A política monetária restritiva segue como vetor central. Apesar da decisão do Copom de iniciar o ciclo de afrouxamento, a taxa básica de juros ainda se encontra em patamares altamente contracionistas, ou seja, acima da taxa neutra — nível no qual a taxa de juros real mantém a inflação dentro da meta e o produto em seu potencial, sem estimular nem desacelerar a economia. 

Contudo, outros fatores também ajudam a explicar esse movimento. Além de a elevada taxa de juros tornar as aplicações no mercado financeiro mais atrativas em comparação aos retornos do setor produtivo e de elevar o custo do crédito — encarecendo o serviço da dívida das empresas e aumentando a inadimplência —, há o aumento da incerteza quanto à demanda futura, decorrente da desaceleração econômica. 

Um exemplo disso é o agronegócio, um dos principais mercados da indústria de máquinas, que deverá enfrentar um 2026 especialmente desafiador. A elevada inadimplência, o maior rigor na concessão de crédito, os juros altos e a queda nos preços das commodities são fatores que vêm impactando negativamente as suas decisões de investimento neste ano. 

Exportações em crescimento, mas o cenário global é incerto 

No mercado externo, o quadro é mais favorável, mas ainda insuficiente para compensar a fraqueza interna. Em fevereiro de 2026, as exportações de máquinas e equipamentos alcançaram US$ 1,043 bilhão, com crescimento de 20,5% sobre fevereiro de 2025 e de 24,6% sobre janeiro de 2026. No acumulado do primeiro bimestre, houve expansão de 12,0%, totalizando US$ 1,88 bilhão; em 12 meses, a alta foi de 8,0%. Trata-se de desempenho positivo, apoiado principalmente por componentes e máquinas destinadas à 
logística e à construção civil. 

Ainda assim, há limites importantes para essa melhora. Parte do crescimento decorre de base de comparação deprimida no início de 2025. Também chama atenção o efeito cambial: em reais, o resultado externo pesa menos sobre a receita total porque a valorização do real reduziu o valor convertido das vendas externas, mesmo com aumento em dólares e em volume. Assim, o setor até encontra algum suporte no mercado externo, mas não na intensidade necessária para neutralizar a retração doméstica. 

Importações e competitividade: ajuste sem ganho estrutural
  
A queda de 2,7% nas importações no bimestre poderia, em tese, abrir espaço para a produção nacional. No entanto, isso não ocorreu. A participação dos importados segue elevada, em 49,7% do consumo, e o recuo das compras externas foi menor do que a contração da demanda total. Esse dado é particularmente relevante: mesmo em um ambiente de retração das importações de máquinas, a indústria nacional não consegue recuperar participação. Isso sugere que o problema competitivo vai além do ciclo econômico e está relacionado a fatores estruturais, como custo de produção, escala e financiamento. 

Capacidade, pedidos e emprego: ajuste em curso, mas ainda incompleto 

O nível  de utilização da capacidade instalada (78,5%) ainda não reflete plenamente a desaceleração, em parte porque o ajuste na estrutura de produção tende a ocorrer com defasagem. Já a carteira de pedidos — 6,7% inferior no bimestre — é um indicador mais antecedente e aponta para continuidade da fraqueza dos últimos meses. 

O mercado de trabalho já dá sinais de fraqueza na atividade produtiva, com o fechamento de cerca de 3 mil postos em fevereiro, dentro de uma trajetória de queda iniciada em 2025. Esse resultado indica que as empresas já estão ajustando sua estrutura de mão de obra ao novo nível de demanda. No entanto, esse ajuste ainda parece parcial. Caso a retração dos investimentos persista, é provável que haja intensificação da ociosidade e novos cortes de mão de obra ao longo do ano. 

Perspectivas
 
Até fevereiro de 2026, o desempenho da indústria brasileira de máquinas e equipamentos pode ser resumido em quatro pontos: (1) o setor iniciou o ano com desaceleração mais intensa, com quedas expressivas da receita no primeiro bimestre; (2) a principal fragilidade está no mercado doméstico, onde juros elevados, endividamento e menor dinamismo da atividade vêm adiando decisões de investimento; (3) o comércio exterior oferece algum alívio, com crescimento das exportações em dólares, mas ainda insuficiente para compensar a retração interna; e (4) a pressão estrutural das importações permanece elevada, com forte predominância chinesa e quase metade do mercado doméstico ocupada por fornecedores externos. 

Embora a ABIMAQ considere que parte da demanda interna por máquinas e equipamentos seguirá sustentada pelas atividades da indústria extrativa e de infraestrutura, decidiu revisar para baixo suas projeções, diante dos resultados mais fracos neste início de ano, especialmente nos setores ligados ao mercado agrícola e à indústria de transformação. 

Diante de um cenário de manutenção da política monetária em campo restritivo, somado à perspectiva de desaceleração da economia e a um setor agrícola menos promissor, a entidade projeta para 2026 crescimento de 0,7% na receita interna da indústria de máquinas e equipamentos. Para as exportações, a expectativa é de alta de 2,3%, mas com provável impacto negativo sobre a receita total em razão da valorização do real prevista para este ano.