Economia  05/10/2026 | Por: Redação

Setor Calçadista

Indústria calçadista projeta estabilidade da produção em 2027

Projeções foram divulgadas durante o Análise de Cenários, realizado pela Abicalçados


Após registrar queda de 5,5% na produção entre janeiro e julho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025, a indústria calçadista deve apresentar uma suavização do resultado nos meses finais de 2026. Para o fechamento do ano, a previsão é de uma queda média de 2,1%. Já para 2027, o setor deve registrar incremento médio de 0,5%, em um cenário de estabilização frente a 2026. As projeções foram divulgadas no Análise de Cenários, realizado pela Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados), no último dia 1º de outubro, no formato on-line. O evento foi apoiado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).  

Na oportunidade, Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados, falou sobre o momento atual e as perspectivas para a indústria calçadista brasileira. Após destacar a queda na produção entre janeiro e julho, na comparação com o mesmo período do ano passado, Priscila projetou uma estabilização da atividade nos próximos meses. “Para o quarto trimestre, a expectativa é de crescimento de 4%, movimento favorecido também por uma base mais fraca de comparação. Já para o primeiro trimestre de 2027, a previsão é de incremento de 1,6%”, disse. No mercado externo, a perspectiva é de melhora gradual, apoiada principalmente na diversificação dos destinos do calçado brasileiro. Uma eventual redução das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros poderia representar um impulso adicional às exportações. Até agosto, conforme dados elaborados pela Abicalçados, as exportações caíram 7,5%, em pares. Para o quarto trimestre do ano, a projeção é de um arrefecimento da queda, para 3,2%. Já no primeiro trimestre de 2027, as exportações devem crescer 7,4%. 

Importações

O mercado brasileiro de calçados, além de registrar retração no consumo aparente de 4,3% até julho, segue pressionado pelo avanço das importações. Entre janeiro e agosto, entraram no Brasil 33 milhões de pares, 9,6% mais do que no mesmo período do ano passado. É o maior nível de importações desde o início da série histórica - iniciada em 1997. 

A pressão é ampliada pelas compras internacionais realizadas por meio de plataformas de comércio eletrônico. Até agosto, as pequenas remessas de calçados somaram US$ 424,9 milhões, crescimento de 67,5% em relação ao mesmo período do ano anterior e, quando somadas às importações regulares, a entrada de calçados no País alcançou US$ 854,6 milhões, valor US$ 313 milhões superior ao total exportado pela indústria calçadista brasileira no período.

Macroeconomia

O Análise de Cenários contou, ainda, com uma contextualização das economias internacional e brasileira. Segundo o doutor em Economia Marcos Lélis, o ambiente externo segue marcado por elevada volatilidade, com pressões sobre os preços de energia contribuindo para manter a inflação acima das metas em importantes economias, e restringindo o espaço para redução dos juros. Esse cenário afeta especialmente o consumo de bens discricionários, entre eles os calçados. “Os dois principais destinos internacionais do calçado brasileiro enfrentam esse ambiente. A inflação nos Estados Unidos acumulada em 12 meses alcançou 3,4% em agosto, muito acima da meta (2%); e na Argentina acumula alta em torno de 30%”, contou, ressaltando que, no caso dos Estados Unidos, além do desaquecimento no consumo, persiste a incerteza com relação à política comercial. Atualmente, produtos brasileiros, entre eles os calçados, estão sujeitos a uma tarifa adicional de 37,5% para entrar no país. 

A perspectiva da economia brasileira não descola da internacional. Tendo crescido 1,9% no primeiro semestre, puxada sobretudo pela agropecuária e pelo setor extrativista, o PIB nacional deve encerrar o ano com incremento de 1,88%. Para 2027, a perspectiva é de crescimento de 1,43%. 

Consumo das famílias

Um dos principais vetores da economia brasileira, o consumo das famílias, vem apresentando sinais de desaceleração. Segundo Lélis, apesar da redução no nível de desemprego (5,3%) e do aumento do rendimento médio real (R$ 3.644, no trimestre maio-junho-julho/2026), o elevado endividamento e o maior comprometimento da renda limitam a capacidade de expansão do consumo. Conforme dados do Banco Central do Brasil, em junho, mais de 10% da renda das famílias era destinada somente para pagamento de juros da dívida. Já o comprometimento total da renda com dívidas chegou a quase 30%. A percepção de endividamento, medido pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aponta um índice recorde da série histórica, com 82% das famílias se declarando endividadas. “Esse maior comprometimento da renda é um dos efeitos do ambiente de juros elevados e acaba reduzindo o espaço no orçamento das famílias para o consumo”, comentou o economista. 

Oportunidades

Uma novidade do Análise de Cenários foi a apresentação das oportunidades para o setor calçadista no mercado internacional, diante de um ambiente marcado pela reorganização dos fluxos comerciais, maior instabilidade e crescimento econômico heterogêneo entre países e regiões. Na América Latina, a proximidade geográfica ganha relevância diante da maior volatilidade e dos custos do frete internacional, favorecendo atributos como menor tempo de entrega, flexibilidade, conhecimento dos mercados e capacidade de reposição. Na Europa, Bélgica e Polônia se destacam por terem registrado crescimento nas importações de calçados no primeiro semestre, na contramão dos demais grandes importadores mundiais do produto.